Seca em algumas regiões, excesso de chuva em outras: o novo cenário climático e a presença do El Niño reforça a necessidade de olhar para o manejo da água e para as condições de cada área.
A previsão indica chuva. O produtor acompanha o mapa, ajusta o planejamento e espera a janela para entrar no campo.
Mas existe uma pergunta que o mapa meteorológico, sozinho, não responde: o que acontece com a água depois que ela chega à lavoura?
Parte pode infiltrar, parte pode escorrer pela superfície e parte pode retornar à atmosfera. As raízes também precisam conseguir acessar a água armazenada.
É nessa relação entre clima, solo e manejo que o debate sobre El Niño ganha uma dimensão prática para a agricultura.
O que a chuva no Sul e o calor no Centro-Norte fazem com a biologia do solo
O El Niño 2026 pode chegar ao pico justo na implantação da soja. Em 10 de setembro, a NOAA calculou 75% de chance de o fenômeno atingir, entre outubro e dezembro, a maior intensidade registrada desde 1950, e mais de 90% de chance de um evento muito forte na primavera e no verão daqui.
Você já viu a previsão de chuva para a sua região. Milímetro, janela, risco de replantio. O que quase nenhuma previsão mostra é o que esse clima faz embaixo da terra: com fungos de solo, com o rizóbio que precisa nodular nas primeiras semanas, com o nitrogênio que a chuva leva para baixo da raiz.
El Niño 2026/27: o que dizem as informações mais recentes?
Em junho, o El Niño ainda era previsão. A NOAA o declarou em 11 de junho, com o índice Niño 3.4 em +0,7 °C. Em agosto, a média já estava em +1,4 °C, e as semanas mais recentes do boletim oficial brasileiro registram +1,8 °C no Niño 3.4 e +3,2 °C no Niño 1+2, a faixa colada à costa da América do Sul.
O Boletim nº 4 do Painel El Niño, divulgado pelo INMET e instituições parceiras em 30 de setembro de 2026, aponta 95% de chance de o fenômeno alcançar intensidade muito forte no trimestre outubro–novembro–dezembro. A previsão indica persistência pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.
Para o agro, o boletim destaca possíveis dificuldades relacionadas à falta de chuva e ao calor em culturas e rebanhos, além de riscos associados ao excesso de umidade, às doenças no trigo e às operações de plantio no Sul. [1]
Isso não significa que todas as propriedades de uma região terão o mesmo resultado.
O El Niño envolve o aquecimento das águas superficiais do Pacífico equatorial central e leste, associado a mudanças na circulação atmosférica. Seus efeitos dependem da localização, da época do ano e de outros fatores climáticos. A intensidade do fenômeno, isoladamente, não determina a gravidade dos impactos em cada lugar. [2]
A previsão sazonal orienta o planejamento. A previsão do tempo e os alertas locais ajudam a ajustar as operações.
Chuva acumulada não conta toda a história
Para avaliar o risco agrícola, vale ampliar a pergunta “quanto vai chover?”:
- Como essa chuva se distribui ao longo do ciclo?
- Qual é a condição do solo quando ela chega?
- Existe cobertura suficiente na superfície?
- Há limitações ao aprofundamento das raízes?
- O histórico da área mostra pontos recorrentes de enxurrada ou dificuldade de estabelecimento?
A Embrapa destaca dois objetivos para o manejo do solo diante da seca: aumentar o armazenamento de água, reduzindo perdas e favorecendo a infiltração, e oferecer condições para raízes profundas. Também lembra que chuvas intensas podem superar a capacidade de infiltração mesmo em áreas com plantio direto. [3]
Por isso, observar apenas o acumulado de chuva pode deixar de fora uma parte importante da análise.
Onde a agricultura regenerativa entra nessa conversa?
O tema fica mais útil quando sai do conceito amplo e chega às práticas.
Cobertura permanente, diversificação de culturas e menor revolvimento do solo são princípios do sistema plantio direto que também se conectam a propostas de agricultura regenerativa.
Segundo a Embrapa, a palhada pode reduzir perdas de água por evaporação e proteger a superfície contra o impacto das gotas. A rotação com diferentes espécies contribui com resíduos e raízes, favorecendo a estrutura do solo e o armazenamento de água. [4]
Esses mecanismos ajudam a explicar por que o planejamento do sistema de produção importa tanto quanto a escolha de uma intervenção pontual.
Para discutir com mais profundidade, três perguntas são especialmente úteis:
1. Minha cobertura protege o solo ao longo do ano?
Observe a distribuição e a permanência da palhada, além das diferenças entre áreas.
2. Meu sistema inclui diversidade de culturas e raízes?
Revise a rotação considerando clima, disponibilidade de água, operação e objetivo produtivo.
3. Estou acompanhando a condição do solo ou apenas repetindo o manejo?
Reúna o histórico de produtividade, as observações de campo e as avaliações disponíveis para identificar prioridades.
O manejo precisa ser ajustado ao ambiente. Práticas conservacionistas não eliminam os efeitos de eventos extremos nem dispensam estruturas de conservação adequadas, como o terraceamento quando indicado. [5]
Conhecer o solo exige reunir diferentes informações
O planejamento para uma safra sob influência do El Niño pode começar com uma organização simples:
- Clima: tendências sazonais, previsões locais e avisos meteorológicos.
- Campo: histórico de produtividade, cobertura, raízes e comportamento da água.
- Solo: resultados químicos, avaliações físicas e informações sobre a biologia do solo e seus riscos biológicos.
Essa organização é uma proposta prática de leitura integrada. Nenhuma dessas informações, isoladamente, explica todo o sistema.
A análise físico-química já utilizada nas decisões de fertilidade pode participar de uma etapa adicional: ajudar a identificar onde vale a pena aprofundar a investigação biológica.
E como você pode identificar e mapear esses riscos biológicos?
O BioStart, desenvolvido pela B4A, utiliza os dados de uma análise físico-química existente para gerar um mapeamento preditivo de riscos biológicos do solo, sem nova coleta para essa etapa inicial.
Os resultados apresentam probabilidades e podem ajudar a priorizar áreas para investigação mais aprofundada. Essa é a conexão com o planejamento: aproveitar dados já disponíveis para adicionar uma camada de informação sobre o solo. [6]
O BioStart não prevê o clima nem estima quanto uma área perderá por seca ou excesso de chuva. Sua avaliação também não substitui uma análise microbiológica direta ou a avaliação física do solo.
A previsão ajuda a acompanhar o cenário climático. O BioStart ajuda a investigar os riscos biológicos indicados pelos dados do seu solo.
Se você já possui uma análise físico-química, esse pode ser um ponto de partida para descobrir sobre quais áreas merecem maior atenção.

Referências
[1] INMET — Painel El Niño: Boletim de setembro é divulgado. Publicação de 30/09/2026, atualização de 01/10/2026.
[2] Organização Meteorológica Mundial — El Niño set to become very strong, raising risks of extreme weather into 2027.
[3] Embrapa — Manejo do solo para tolerância à seca.
[4] Embrapa Soja — SECA: Manejo do Solo. Utilizado para fundamentos de manejo; os dados históricos de perdas da página não foram tratados como atuais.
[5] Embrapa — Manejo do solo para redução das perdas de produtividade pela seca.

